Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Seminário da 18ª Romaria da Terra e das Águas de Goiás
“Corra o direito como água e a justiça como um rio que não seca.” (Am 5,24)
1. A terra guarda a memória de Deus
Há uma sabedoria antiga no curso dos rios. Eles atravessam a terra sem perguntar a quem ela pertence, alimentam a vida sem distinguir a condição de quem tem sede e seguem seu caminho recolhendo as águas que lhes chegam de lugares distantes. Na sua passagem, as paisagens se transformam, as sementes encontram condições para germinar e os homens estabelecem suas moradas. A história das civilizações está profundamente associada à história das águas. Onde um rio corre, alguma forma de vida se anuncia. Onde as águas desaparecem, a própria existência humana começa a experimentar os limites de sua sobrevivência.
Em junho de 2027, quando realizarmos a 18ª Romaria da Terra e das Águas, estaremos reunidos em Aragarças, no encontro dos rios Garças e Araguaia. É um lugar particularmente expressivo para aquilo que desejamos celebrar. Ali, o encontro das águas oferece à nossa reflexão uma imagem da convivência, da fecundidade e da comunhão. As águas que chegam de caminhos diferentes encontram um destino comum. Essa imagem inspira o tema de nossa Romaria, “No abraço dos rios, a vida em abundância”, e ajuda a compreender a força do ensinamento do profeta Amós, que nos convoca a fazer correr o direito e a justiça como um rio que não seca
Entretanto, existe algo ainda mais profundo nessa imagem. O encontro dos rios recorda que nenhuma vida se sustenta inteiramente por si mesma. Vivemos de relações. Dependemos da terra que nos alimenta, da água que percorre nosso corpo, do trabalho de quem produz nosso alimento, do cuidado daqueles que vieram antes de nós e da generosidade de uma criação que recebemos como dom. A existência humana encontra sua verdadeira grandeza quando reconhece essas relações e aprende a preservá-las.
A experiência religiosa acrescenta a essa realidade uma dimensão decisiva. A terra e a água pertencem à ordem da criação. Nelas reconhecemos a generosidade de Deus, que dispôs o mundo como morada de todos os seres vivos. Nossa fé contempla a natureza como expressão de uma sabedoria originária, uma realidade que nos antecede, nos acolhe e ultrapassa nossos projetos individuais. Tudo aquilo que existe recebeu o ser como dom e está destinado a participar da manifestação da glória de Deus.
Por isso, uma Romaria da Terra e das Águas possui alcança o centro da experiência cristã. Reunimo-nos para reconhecer a santidade da vida, compreender as ameaças que pesam sobre ela e assumir nossa responsabilidade diante de Deus, da humanidade e das gerações que ainda virão. Caminhamos como povo que conhece a gratidão, experimenta a dor e conserva a esperança. Nossa peregrinação reúne a memória dos que trabalharam esta terra, o sofrimento daqueles que foram privados de seus direitos e a expectativa dos que desejam construir uma sociedade em que a abundância da criação se transforme em dignidade compartilhada.
É nesse horizonte que desejo desenvolver nossa reflexão. A água que corre diante dos nossos olhos pode ensinar-nos a compreender três realidades inseparáveis. O dom da criação, a exigência da justiça e a vocação humana para produzir vida em abundância.
O profeta Amós viveu numa sociedade que conhecia a prosperidade econômica e, ao mesmo tempo, profundas desigualdades. A riqueza crescia, o comércio prosperava, a vida religiosa conservava suas celebrações e seus ritos. Entretanto, por trás dessa aparente estabilidade, multiplicavam-se as injustiças. Os pequenos eram oprimidos, os pobres encontravam dificuldades para defender seus direitos e as relações sociais eram frequentemente determinadas pela força daqueles que possuíam maiores recursos.
Amós compreendeu que essa situação revelava uma profunda desordem espiritual. Uma sociedade que permite a prosperidade de alguns à custa da miséria de outros fere a própria ordem desejada por Deus. A injustiça possui uma dimensão religiosa porque atinge a criatura que traz em si a imagem do Criador. O sofrimento dos pobres chega ao coração de Deus, e sua dignidade permanece como exigência inegociável da aliança.
É nesse contexto que devemos compreender a severidade das palavras do profeta. No quinto capítulo de seu livro, Amós apresenta uma das mais vigorosas críticas religiosas de toda a Escritura. Deus rejeita as solenidades, os cânticos e as ofertas de um povo que conserva suas práticas religiosas enquanto permite a corrupção da justiça. O problema denunciado pelo profeta é a separação entre aquilo que se celebra diante de Deus e aquilo que se pratica diante dos homens.
Então surge a grande imagem que ilumina nossa Romaria.
“Corra o direito como água e a justiça como um rio que não seca”.
A força dessa expressão merece nossa atenção. Amós poderia simplesmente ter exigido que o povo praticasse a justiça. Preferiu associá-la ao movimento incessante das águas. Escolheu um elemento do qual todos dependem e fez dele a medida da fidelidade humana a Deus.
A água procura passagem, alcança lugares distantes, percorre as depressões da terra e sustenta a vida em sua diversidade. O profeta deseja que o direito possua essa mesma capacidade de alcançar as pessoas, especialmente aquelas que se encontram nas regiões mais esquecidas da sociedade. A justiça deve chegar aonde a necessidade humana se apresenta e percorrer as instituições, orientar as leis, ordenar a economia e proteger a dignidade de cada pessoa.
A expressão “um rio que não seca” acrescenta a essa exigência uma dimensão fundamental. O direito precisa de continuidade. A justiça deve ser uma disposição permanente das relações humanas e das instituições. Sua realização não pode depender exclusivamente da boa vontade ocasional de governantes, da generosidade de particulares ou da comoção provocada por grandes tragédias.
Há uma diferença entre a caridade que alivia uma necessidade e a justiça que impede a produção sistemática dessa necessidade. Ambas pertencem à experiência católica. A caridade encontra seu amadurecimento social quando contribui para estabelecer condições nas quais cada pessoa possa viver de seu trabalho, desenvolver suas capacidades e participar dos bens necessários à existência.
Uma sociedade verdadeiramente justa deve possuir instituições capazes de proteger os direitos daqueles que dispõem de menos recursos para defendê-los. O pobre não deve depender de um favor para alcançar aquilo que lhe pertence por direito, pois a dignidade humana antecede qualquer concessão do poder político ou econômico. Reconhecê-la significa admitir que a vida de cada pessoa possui um valor que nenhuma circunstância social pode diminuir.
A justiça que Amós anuncia é atual. Quando a água se torna inacessível aos mais pobres, quando a terra perde sua função social, a palavra do profeta recupera sua força original.
Ela nos obriga a reconhecer que a abundância de bens produzidos por uma sociedade não representa, por si mesma, a abundância de vida prometida por Deus.
A justiça é o grande rio que deve atravessar a organização da sociedade. Suas águas precisam alcançar inclusive aqueles que vivem longe dos centros de decisão e dos lugares onde a riqueza se concentra.
Em sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação de 2023, o Papa Francisco escolheu precisamente essa passagem de Amós para recordar que a justiça é tão necessária à nossa condição de filhos de Deus quanto a água é indispensável à nossa sobrevivência física. Sua reflexão aproxima a justiça social, o equilíbrio da criação e a responsabilidade espiritual da humanidade.
A imagem bíblica, portanto, contém uma exigência muito concreta. Devemos construir uma sociedade em que o direito tenha a constância dos rios e a justiça alcance a profundidade das necessidades humanas.
Nossa reflexão possui um lugar geográfico muito preciso. Falamos a partir do Cerrado brasileiro, uma das expressões mais singulares e preciosas da criação.
A paisagem do Cerrado ensina uma verdade que frequentemente escapa aos nossos olhos. Grande parte de sua riqueza permanece escondida. Debaixo da vegetação, nas profundidades do solo, nas raízes das árvores e nos reservatórios subterrâneos, realiza-se um trabalho silencioso de conservação da água. Durante os períodos de estiagem, os aquíferos continuam alimentando nascentes e cursos d’água. Aquilo que permanece invisível sustenta a vida que aparece na superfície.
O Cerrado é justamente chamado de berço das águas. Nele se encontram nascentes que alimentam algumas das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras, entre elas a do Tocantins-Araguaia, a do São Francisco e a do Paraná. Sua preservação possui consequências que ultrapassam imensamente seus
A vida que contemplamos depende de processos que não dominamos inteiramente e de equilíbrios que exigem tempo para se constituírem. A natureza possui ritmos, limites e formas próprias de regeneração.
Proteger uma nascente significa proteger muito mais que o ponto onde a água começa a correr. Significa cuidar do solo, da vegetação, das condições de infiltração, das matas ciliares e de todo o conjunto de relações que permite a continuidade do ciclo das águas.
Uma nascente destruída compromete o pequeno córrego; o córrego enfraquecido atinge o rio; o rio degradado compromete a existência de comunidades inteiras. A natureza nos apresenta uma pedagogia da interdependência.
Ao contemplarmos o encontro dos rios Garças e Araguaia, devemos recordar as inúmeras nascentes, veredas, cursos d’água e extensões de terra que tornam possível aquele abraço.
Também as comunidades humanas possuem suas nascentes. Cada povo traz consigo uma memória e conhecimentos transmitidos de geração em geração. Os povos indígenas, as comunidades tradicionais, os trabalhadores rurais, os agricultores familiares, os ribeirinhos e tantas famílias que vivem da terra guardam experiências importantes para compreendermos o significado humano de um território.
A terra possui valor econômico. Possui igualmente valor social, cultural, afetivo e espiritual. Quando uma população perde injustamente seu território, a violência atinge uma parte essencial de sua identidade e de suas possibilidades de futuro.
Por essa razão, a proteção ambiental e a promoção da justiça social devem caminhar juntas. Isso é responsabilidade ambiental.
O Papa Francisco soube reunir essas duas dimensões numa das afirmações centrais da Laudato si. A Igreja precisa ouvir simultaneamente o clamor da terra e o clamor dos pobres (LS 49), a crise ambiental e a crise social pertencem a uma mesma realidade que exige respostas integradas.
Daqui nasce uma compreensão mais exigente do desenvolvimento. Produzir alimentos, promover a atividade econômica, gerar empregos e criar riqueza são tarefas legítimas e necessárias. Mas a legitimidade de um processo econômico também se mede pela maneira como utiliza os bens naturais, trata os trabalhadores, respeita os territórios e distribui seus benefícios. A prosperidade precisa ser compatível com a continuidade da vida.
O Cerrado nos pede, portanto, uma responsabilidade que possui dimensão histórica. Aquilo que fizermos com suas terras e suas águas determinará uma parte importante da nossa vida e daqueles que ainda não nasceram. É preciso reconhecer que o futuro possui direitos sobre o presente e os bens que recebemos carregam consigo uma obrigação de transmissão.
Chegamos ao centro propriamente cristão da nossa reflexão. A expressão “vida em abundância”, escolhida para o tema da Romaria, encontra profundidade nas palavras de Jesus Cristo, transmitidas pelo Evangelho de São João: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
A encarnação do Filho de Deus manifesta a vontade divina de comunicar à humanidade a própria plenitude da vida. Em Cristo, a existência humana recebe um horizonte que ultrapassa a morte, alcança a comunhão com Deus e encontra sua realização na ressurreição.
Jesus aproxima-se dos pobres, acolhe os excluídos, cura os enfermos, alimenta os famintos e devolve dignidade àqueles cuja existência parecia esquecida. Seus gestos manifestam a presença de um Reino em que a dignidade da pessoa humana ocupa um lugar central.
A vida abundante que Jesus oferece precisa encontrar expressão nas condições concretas da existência.
No diálogo com aquela mulher, Jesus anuncia a água que se torna fonte de vida eterna (Jo 4,1-15). A água material permanece como condição da existência, enquanto a água viva revela a dimensão mais profunda da salvação. A experiência humana da sede torna-se lugar de encontro com Deus.
A mesma realidade aparece no julgamento definitivo apresentado por Jesus no Evangelho de Mateus. Entre os gestos pelos quais se manifesta o reconhecimento de Cristo está o cuidado dispensado àquele que tem sede (Mt 25,35). O Senhor identifica-se com a pessoa necessitada e confere aos nossos atos de solidariedade uma dimensão eterna.
Percebemos, assim, que a espiritualidade cristã possui consequências concretas. A fé precisa educar nossa sensibilidade para perceber a presença de Cristo nas necessidades humanas.
Também a Eucaristia ilumina nossa compreensão da terra e das águas. O pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, tornam-se, pela ação divina, sacramento da presença de Cristo. A criação é acolhida na economia da salvação e elevada à sua mais alta dignidade.
Essa compreensão possui uma consequência espiritual extraordinária. O cuidado com a criação está intimamente ligado à nossa vocação de oferecer o mundo a Deus. A terra cultivada, a água preservada, o alimento partilhado e o trabalho realizado com justiça podem tornar-se expressões concretas de uma existência vivida como dom.
Aqui se encontram novamente Jesus e Amós. A justiça que o profeta deseja ver correr como um rio alcança, em Cristo, sua expressão mais elevada. O Senhor nos ensina a reconhecer cada pessoa como destinatária do amor do Pai e nos confia a responsabilidade de tornar esse amor visível na história.
A Romaria da Terra e das Águas pertence a uma tradição particularmente importante da vida da Igreja no Brasil. Ao longo das últimas décadas, essas peregrinações reuniram comunidades cristãs, trabalhadores, movimentos populares e pessoas comprometidas com a defesa da dignidade humana.
Há algo de profundamente evangélico nessa memória. A Romaria recolhe histórias de sofrimento e de esperança. Conserva a lembrança daqueles que lutaram pela dignidade da vida no campo, recorda as comunidades que enfrentaram dificuldades e celebra as conquistas alcançadas pelo trabalho perseverante de muitas pessoas.
A história da Romaria também nos recorda o serviço prestado pela Comissão Pastoral da Terra. Sua presença junto às comunidades, sua dedicação à documentação dos conflitos e seu compromisso com a dignidade dos trabalhadores rurais constituem uma contribuição importante para a missão social da Igreja.
A Romaria que estamos preparando oferece uma oportunidade para renovar esses compromissos. A cabaça e a imagem de Nossa Senhora, que percorrem as comunidades de nossa Diocese, ajudam a reunir nossa fé, nossas tradições e nossos anseios. Cada comunidade visitada acrescenta sua experiência a essa grande peregrinação.
Será importante que essa caminhada nos ajude a descobrir o valor da escuta. Temos muito a aprender com aqueles que conhecem a terra pelo trabalho cotidiano, com os que dependem diretamente dos rios, com as mulheres que sustentam suas famílias, com os jovens que desejam permanecer em seus territórios.
A Romaria precisa tornar-se um lugar de encontro entre essas experiências e os conhecimentos científicos, as instituições públicas, as organizações sociais e a reflexão teológica. A diversidade de contribuições será uma fonte de enriquecimento para nossa missão.
Ao nos aproximarmos da conclusão, desejo recordar que a grandeza espiritual desta Romaria também será medida por sua capacidade de despertar compromissos concretos.
- O primeiro compromisso deve ser com a proteção das águas. Precisamos conhecer melhor as nascentes, os córregos e os rios de nossos municípios, compreender as ameaças que enfrentam e colaborar com iniciativas destinadas à sua conservação. A recuperação de matas ciliares, a proteção de veredas, o cuidado com o solo, o tratamento adequado de resíduos e a preservação dos mananciais são expressões concretas de responsabilidade com a vida.
- O segundo compromisso diz respeito à dignidade das populações. O acesso à água potável e ao saneamento, a segurança do trabalho rural, a proteção dos territórios tradicionais e a promoção de oportunidades para as famílias precisam integrar as preocupações da sociedade e de suas instituições. O direito deve estar presente na organização dos serviços públicos e nas condições reais de vida das comunidades.
- O terceiro compromisso exige diálogo e responsabilidade política. A defesa das águas e da terra necessita da participação de agricultores, trabalhadores, pesquisadores, gestores públicos, comunidades tradicionais, organizações ambientais e entidades religiosas. Precisamos de instituições capazes de produzir decisões transparentes, fundamentadas em conhecimentos consistentes e orientadas pelo interesse público. A participação das comunidades nas decisões sobre os próprios territórios constitui parte essencial desse processo.
- O quarto compromisso pertence especialmente à educação. Uma nova relação com a terra e com as águas precisa começar na formação das crianças e dos jovens. As escolas, as famílias, as comunidades religiosas e os meios de comunicação podem contribuir para formar uma consciência que reconheça a natureza como bem comum e compreenda a solidariedade como princípio da convivência humana.






