Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Têm momentos em nossa história, em que a existência parece suspensa sobre um abismo. Uma dessas horas é aquela em que o sofrimento se apresenta sem explicação, a justiça parece exilada do mundo e Deus permanece envolto num silêncio que nenhuma súplica consegue provocá-lo. É nessas horas que coisas mais antigas que os medos, mais profundas que os nossos pensamentos e mais forte que a própria morte, se manifestam.
Jó foi uma pessoa que conheceu essa fronteira. Despojado de seus bens, privado de seus filhos, ferido no corpo e abandonado à incompreensão dos amigos, viu desmoronar o mundo sobre o qual caminhava. A sua dor alcançou uma profundidade indizível. Foi nesse momento que suas palavras foram gravadas com ferro, fixadas com chumbo e inscritas para sempre sobre a rocha. Ele queria deixar para a eternidade o testemunho daquilo que nenhum sofrimento conseguira arrancar de sua alma. Por isso bradou: “Eu sei que meu Redentor vive!” (Jó 19,25).
Jó não havia recuperado coisa alguma. Seus mortos continuavam mortos, suas feridas abertas e suas perguntas sem respostas. Sua esperança nasceu no interior de uma existência devastada, quando já não restava garantia de que o mundo voltaria a ser como antes.
A esperança escrita sobre a rocha custa muito. Custa permanecer fiel quando a fidelidade parece inútil, uma altura espiritual que ninguém alcança levando as suas antigas convicções. O caminho para Deus exige que alguma coisa em nós seja deixada; muitas das vezes, justamente aquelas que julgávamos indispensáveis.
Jó queria que suas palavras fossem inscritas numa rocha porque sabia que a vida humana podia desaparecer como uma inscrição traçada na areia (19,24). A sua esperança ainda procurava um rosto.
Séculos depois, esse rosto apareceu entre nós. Deus entrou na história e assumiu a fragilidade daqueles que sofrem. Em Jesus Cristo, a esperança de Jó encontrou a profundidade esperada e o sofrimento humano já não estava fora da experiência do próprio Deus feito homem.
A humanidade, então, encontrou a esperança que podia atravessar com ela as regiões mais sombrias da existência.
Há, pois, uma correspondência profunda entre Jó, sentado sobre as cinzas de sua vida, e Cristo, sentado sobre a montanha das bem-aventuranças. De um lado, o homem ferido que continua esperando a justiça de Deus. Do outro, o Filho de Deus que revela a justiça de um Reino ainda começando. Entre ambos se estende o longo caminho pelo qual a humanidade entende que a grandeza não pode ser medida pela prosperidade, pela força ou pelo reconhecimento. Aquilo que Jó sustentara contra todas as evidências, Cristo transformou em caminho de vida. O pobre, o aflito, o manso e o perseguido já não precisariam esperar que o mundo os reconhecesse para descobrir o valor de sua existência. Foi o próprio Deus que os proclamou bem-aventurados.






