Pastor de gente

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Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

Agora o tempo é outro e o grupo de pescadores, tantas vezes protegido pela presença visível de Jesus, aproxima-se do momento em que precisará caminhar sustentados por uma presença nova, mais profunda e invisível. Pedro bem sabe!

Por isso, quando Jesus pergunta: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,15), não é apenas um exame de sentimentos nem da intensidade dos afetos. Pedro compreende que está diante de algo muito maior. O Senhor irá lhe confiar as suas ovelhas, aquilo que possui de mais precioso. E, ninguém pode conduzir o rebanho de Cristo apenas porque o ama.

Muitos amam Jesus e se emocionam diante de sua palavra. Muitos desejam segui-lo. Mas apascentar o povo de Deus exige ter parte com Cristo. Exige possuir algo do próprio Mestre. Muitos o amaram e muitos ainda hoje o amam. Entretanto, para carregar pessoas sobre os ombros, para curar feridas do coração, para sustentar a esperança dos desesperançados, é preciso possuir algo do próprio Cristo.

Pedro já não ousa prometer o amor heroico que havia proclamado na última Ceia, cujo da negação ainda permanece em sua memória. O pescador conheceu a fragilidade humana e aprendeu que a missão da Igreja jamais se sustenta sobre as próprias forças. Então Pedro oferece a Jesus a amizade. “Senhor, tu sabes que sou teu amigo”.

Na tradição grega, a amizade não era um sentimento menor, como concebemos hoje. Era a mais alta das virtudes humanas, porque somente amigos podem compartilhar a própria vida, tornar-se semelhantes e possuir algo um do outro. O amigo não permanece exterior, mas participa da existência do outro, toma parte em seus sonhos, em suas dores, em sua missão.

Pedro reconhece não possuir ainda a perfeição do amor, mas deseja ter algo e dele. Quer partilhar sua vida, sua maneira de olhar, de perdoar, de sofrer e de esperar. Quer que os modos de Jesus se tornem os seus modos.

Ao dizer: “Senhor, tu sabes que sou teu amigo”, Pedro suplica parte com Jesus, pois só assim poderá realizar aquilo que lhe é pedido.”

Ninguém nasce pastor do povo de Deus. Ninguém se torna discípulo por esforço pessoal. Pela graça recebemos a missão; pela mesma graça vamos adquirindo os traços do Mestre. Pouco a pouco, os olhos de Cristo tornam-se nossos olhos, sua compaixão torna-se nossa compaixão, sua paciência torna-se nossa paciência. O discípulo amadurece até poder dizer: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”.

Por isso, toda vocação cristã nasce entre a aflição o pedido de ajuda. Pedro conhece a grandeza da tarefa e teme. Sabe que sozinho fracassará novamente. Contudo, confia naquele que o chama. E, sobretudo, pede silenciosamente aquilo que ninguém pode conquistar por si mesmo, participar da própria vida de Jesus.

Quem cuida de gente precisa conservar a capacidade de se deixar tocar. O risco do pastor não é o cansaço, mas a indiferença. Jesus jamais passou diante do sofrimento humano sem deter o olhar. Compadecia-se das multidões, chorava pelos amigos, acolhia os pequenos, aproximava-se dos pecadores. O pastor de gente não pode permitir que a rotina e a preguiça lhe endureçam o coração.

Pedro precisará permanecer amigo de Jesus até o fim. Sem amizade com Cristo, o pastor corre o risco de falar muito de Deus sem jamais falar com Deus.

Por isso pastor de gente reza incessantemente dizendo: Senhor, não basta que te amemos, dá-nos algo de ti. Ensina-nos a amar como amas, a servir como serves, a perdoar como perdoas. Faz-nos teus amigos, para que possamos ser também teus pastores, teus discípulos e testemunhas no mundo presente e no que há de vir.