A política do futuro e o futuro da política

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Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

Há um empobrecimento na política contemporânea que se revela, sobretudo, numa perda progressiva da arte de propor. A política, espaço da formulação de caminhos comuns, da leitura do tempo e da construção de horizontes, parece ter se reduzido à lógica da reação.
Essa mudança é grave. Reagir não é, em si, um mal. Toda vida pública supõe resposta, contraste, crítica, resistência, correção. O problema começa quando a reação deixa de ser uma etapa do discernimento e passa a ser a única aposta da política. Nesse caso, já não se age a partir de uma visão de futuro, mas a partir do estímulo vindo do adversário.
Uma política assim vai perdendo relevância. Em vez de pensar o que precisa nascer, ela se ocupa obsessivamente em neutralizar o que acabou de surgir. Em vez de formular um projeto de país, passa a viver de réplica, revide, indignação e contra-ataque. Tudo se torna reação. Um grupo fala, o outro rebate. Um setor propõe, o adversário fabrica o símbolo oposto. Um acontecimento explode, e imediatamente ele é absorvido como munição emocional para alimentar a próxima rodada do conflito.
É preciso reconhecer que essa lógica não é apenas uma deformação estratégica; ela é também uma deformação espiritual. Uma sociedade que só reage começa a perder a serenidade necessária para compreender o que está vivendo. Torna-se incapaz de silêncio, de elaboração, de linguagem mais profunda. Fala muito, mas pensa pouco. Emite opiniões, mas já não consegue nomear os acontecimentos. O resultado é uma fala cada vez mais inflamada e cada vez menos fecunda. Incapaz interpretar o tempo.
A crise atual é, em grande parte, esta. Vive-se num ambiente saturado de reação e esvaziado de proposição. O político não se mede mais por sua capacidade de abrir caminhos, mas por sua habilidade em sobreviver ao ciclo imediato da polêmica. Sua força parece consistir em manter a própria base mobilizada, alimentar a própria trincheira, preservar sua presença na disputa constante. No entanto, isso produz uma espécie de poder sem grandeza de movimento sem avanço, de ruído, sem direção, de combate sem construção.
O mais preocupante é que uma política fundada exclusivamente na reação perde a capacidade de se relacionar com o futuro. E o futuro não espera. Ele se aproxima mesmo quando uma sociedade está distraída, cansada ou fechada em seus próprios enfrentamentos.
Nisso reside uma das maiores fragilidades do nosso tempo!
Às possibilidades de soluções mais significativas estão esvaziadas, porque soluções verdadeiras não nascem da negação reacionária. Elas exigem inteligência histórica, imaginação moral, paciência institucional e coragem para propor o que ainda não foi testado.
Solução significativa não é o que resolve o impasse do hoje, mas a que inaugura a capacidade coletiva de existir e reorienta a convivência.
Mas esse processo requer algo que a política reativa já quase não suporta, interioridade.
É preciso haver reflexão antes da fala, visão antes da disputa, discernimento antes da mobilização. É preciso aceitar que nem toda resposta é pensamento, que nem toda indignação é lucidez, que nem toda velocidade é vigor.
Hoje em dia a reação apenas mascara a ausência de projeto. Há discursos cuja agressividade serve para esconder o vazio de direção. Há lideranças que falam sem cessar porque já não conseguem conduzir. E há sociedades inteiras que se deixam levar por esse circuito, confundindo intensidade com profundidade.
Por isso, o grande desafio do presente não é apenas reduzir a hostilidade pública, mas restaurar a capacidade propositiva. Isso significa recuperar uma política que não dependa exclusivamente do erro do outro para existir. Significa reencontrar a coragem de formular um país possível, instituições renovadas, prioridades comuns, linguagens mais honestas e menos mentiras. Significa, sobretudo, sair da menoridade histórica de quem apenas reage para entrar na idade adulta de quem assume responsabilidade pelo que vem.