O sol nasce no Leste

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Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

O sol nasce no Leste e a Igreja viu nele, desde cedo, a figura de Cristo, e compreendeu o Oriente como direção espiritual, lugar simbólico da esperança, região de onde chega a luz. Quando Jesus diz: “Eu sou a luz do mundo”, evoca a paisagem da Galileia e ultrapassa a dimensão do espaço e o tempo. Ele é aquele que torna novamente visível o que a escuridão encobriu. Cristo surge no Oriente e, como o sol, começa sua marcha sobre a história.

A primeira luz do Evangelho iluminou um mundo de hierarquias rígidas e demonstrou sua força transformadora. Jesus caminhou entre homens e mulheres cuja existência tinha pouca relevância, mas seus gestos reeducaram o olhar.

Na força do Evangelho Deus inclinou-se para as margens e, ao fazê-lo, obrigou o mundo inteiro a reconsiderar seu próprio ponto de vista. Os pobres são chamados bem-aventurados, os últimos podem tornar-se primeiros, o pecador pode ser perdoado e o inimigo deve ser amado.

O Sol avançou para o Oeste. Encontrou Antióquia, Atenas e Roma; o anúncio dos pescadores entrou em diálogo com a filosofia, fundou o direito, penetrou a arte, criou instituições, inspirou santos.

Ao longo dessa travessia, o Ocidente foi aprendendo a pronunciar palavras cujo alcance ainda hoje não compreendeu plenamente. Pessoa, consciência, dignidade, liberdade, igualdade, responsabilidade.

O Sol, agora, marcha na tarde do mundo. A luz é intensa, mas o calor também aumentou. A história é um movimento no qual as conquistas produzem suas próprias contradições e o drama de nossa época nasce do sucesso de nossas próprias conquistas.

O Evangelho permanece luminoso para um mundo saturado de regulamentos, sistemas e algoritmos. Toda estrutura humana precisa conservar a memória para a qual foi criada.

A preferência de Deus pelos pobres torna-se ainda mais inquietante quando o sol alcança essa hora da tarde. A pobreza continua existindo, mas surgem novas maneiras de ficar para trás. A transformação tecnológica, a automação, a concentração de conhecimento, o aumento da complexidade econômica e a velocidade das mudanças dos últimos cinco anos, criam fronteiras de exclusão. O pobre do futuro será também aquele que não consegue acompanhar o ritmo do mundo, que não possui acesso aos códigos pelos quais a nova sociedade se organiza, que se torna invisível não apenas pela falta de dinheiro, mas pela incapacidade de entrar nas redes onde decisões, oportunidades e reconhecimento circulam.

O Sol caminha para o Ocidente, e a beleza da tarde nasce do fato de sabermos que o dia possui um limite. As sombras se alongam sobre a terra enquanto a luz adquire outra profundidade. A civilização ocidental atravessou séculos sob essa luz vinda do Oriente; algumas vezes a acolheu, outras vezes a traiu, muitas vezes esqueceu sua origem enquanto conservava seus frutos. Chegamos a uma hora em que será preciso decidir o que queremos para o restante do dia.

O sol nasceu no Leste e continua sua marcha. Estamos sob a claridade da tarde, onde o homem que chamou a si mesmo de luz do mundo é o único capaz de fazer nascer outra manhã. Estamos sob o sol da tarde!