A semelhança das Coisas

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Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

Tudo o que pertence a uma mesma época acaba, de algum modo, por se parecer, segundo Marcel Proust. Há uma familiaridade entre coisas aparentemente distantes quando nasceram sob o mesmo céu histórico. Uma época imprime, assim, sua forma sem que aqueles que nela vivem consigam perceber.

Percebemos isso quando olhamos para trás. Numa fotografia antiga, não são apenas as roupas que pertencem a outro tempo, mas os utensílios, a paisagem, e por fim, as próprias pessoas. Há uma unidade entre todas elas.

Nossa dificuldade começa quando tentamos reconhecer essa mesma unidade no mundo em que estamos vivendo. O presente possui a desvantagem da proximidade. Estamos dentro dele e, por isso, não conseguimos vê-lo. No entanto, também a nossa época tem uma unidade.

A experiência contemporânea é cada vez mais acompanhada pela necessidade de sua autorrepresentação. Fazemos alguma coisa e logo somos tentados a mostrar que fizemos. Estamos habituados a viver diante de um público permanente.

Essa mudança alcança as regiões mais profundas da consciência, e modifica a relação entre aquilo que somos e aquilo que mostramos. A antiga pergunta sobre a verdade das coisas vai sendo acompanhada, e muitas vezes substituída, pela preocupação com o que aparece. Não se trata apenas de vaidade. É uma alteração no ambiente em que a vida acontece. O mundo contemporâneo só reconhece aquilo que pode ser percebido rapidamente, comunicado com facilidade e transformado em imagem. Por isso aprendemos cada vez melhor a representar a vida.

Essa lógica se espalha muito além das redes digitais. Está nas superfícies lisas, nos espaços cada vez mais semelhantes, nas mensagens breves e nas instruções que precisam ser compreendidas sem esforço.

A linguagem sofre transformação semelhante. A comunicação precisa ser rápida e, de preferência, imediatamente inteligível. Textos longos exigem uma paciência que já não temos. Explicações complexas despertam suspeita. O pensamento é pressionado a caber em espaços cada vez menores, como se a brevidade fosse sinal de clareza e a demora uma deficiência.

A velocidade adquiriu, assim, uma espécie de autoridade própria. Essa lógica ultrapassou os objetos e entrou na própria consciência.

Construímos uma enorme memória exterior e confiamos a ela uma parte cada vez maior daquilo que antes guardávamos interiormente.

Mas arquivar e lembrar são experiências diferentes. Uma experiência ainda não terminou de produzir seu sentido e outra já se interpõe. A vida se converte numa sucessão de acontecimentos incapazes de formar uma história.

A consciência passa de uma emoção a outra numa velocidade que ainda não estamos preparados. É possível que parte da aparente indiferença de nosso tempo nasça desse excesso. Excessos produzidos por nós mesmos, mas que, depois de produzidos passam a nos conduzir.

Pensar o presente é tentar antecipar esse olhar. É procurar enxergar a própria época antes que ela se transforme inteiramente em passado. Porque, no fim, aquilo que imprimimos no mundo não revela apenas nosso gosto ou nossa inteligência técnica. Revela a ideia de humanidade com a qual escolhemos viver.