Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Ainda havia lágrimas sobre a terra quando a manhã da Ressurreição começou a raiar. O céu, descorado e silencioso, suspenso entre a dor da noite passada e o primeiro latejo de uma esperança desconhecida. Tudo guardava a memória do sofrimento. Mas uma vida nova, invisível e vitoriosa, já começava a fruir como um rio que corre sob as encostas das desesperanças.
Maria Madalena foi a primeira a caminhar junto ao sepulcro com um coração transbordante de sombra e saudade. Amava, e por isso sofria; sofria, e por isso buscava. Queria ao menos encontrar o corpo daquele que foi a claridade de sua vida. Esperava a última fidelidade da tristeza, pois quando o amor é grande, o luto é descomunal.
Mas o jardim, entregue ao pranto, guardava em si uma surpresa melhor que a aurora. O Ressuscitado já estava ali. Veio como quem conhece o coração humano e sabe que a alma, depois de ferida, só pode ser tocada pela delicadeza.
Maria não o reconheceu de imediato. Os olhos, tantas vezes, são os últimos a crer naquilo que o coração deseja. Então Ele pronunciou o seu nome.
Maria, que andava dispersa pelos abismos da perda, foi chamada de volta, pois quando Deus chama uma criatura pelo nome, o que se ouve não é apenas um chamado. Ouve-se o destino, uma ternura, uma posse de amor. Maria reconheceu-o não pela forma do rosto, mas pela força da presença. Era Ele. O mesmo. Vivo. Vencedor. Mais íntimo agora que antes, porque passara através da morte e a vencera.
Desde aquele instante, o mundo nunca mais foi o mesmo. A Ressurreição trouxe uma nova sensibilidade para a alma humana. O Ressuscitado começou a coabitar na transparência dos gestos, na chama das memórias santas, no tremor dos corações visitados.
Assim aconteceu também àqueles dois caminhantes perdidos na estrada de Emaús. Iam curvados sob o peso da desilusão, como árvores vergadas por uma tempestade. Falavam do Mestre como se falassem de um sol apagado, de uma promessa sepultada, de uma beleza que o mundo assassinou. O caminho parecia longo, porque a tristeza alonga as distâncias. E, contudo, Ele já caminhava ao lado deles.
Na sublime ternura Ele escuta a amargura dos discípulos, recolhe os pedaços da esperança destruída e entra no interior das suas fraquezas. Cristo glorioso não se ornamenta com majestades para humilhar os vencidos, mas se faz companheiro de estrada. Quanta nobreza neste Ressuscitado, que deixou-se reconhecer no partir do pão. Então os seus olhos se abriram enfim. E eles puderam dizer: é o Senhor.
Seus corações ardiam; sim, ardiam, porque a presença de Cristo, mesmo quando não reconhecida já incendeia tudo.
O Ressuscitado, agora, não precisa escrever outra lei sobre pedra ou ditar um novo código para o mundo. Sua presença basta. Sua vitória basta. “Sou Eu” basta. Depois da Páscoa, a verdade é um rosto a ser amado e não uma doutrina a ser aprendida. É um caminho a ser percorrido com Alguém que venceu o abismo da desesperança.
Nós, os discípulos, a partir de então, tornamo-nos homens e mulheres de uma coragem desconhecida. Não a coragem tempestuosa dos soldados em guerra, nem a coragem soberba dos que confiam em si mesmos; mas a coragem tranquila, invencível, luminosa daqueles que viram a morte ser derrotada.
A manhã de Páscoa foi o princípio de uma nova era para a terra. Por toda parte disseminou-se uma lembrança de Cristo ressuscitado, uma promessa escondida nas minúcias, uma beleza por detrás das coisas ordinárias.
No fim, toda saudade que sentíamos dEle, transformou-se em presença, e isso nos basta.








