Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” (Mt 9,9). Na brevidade desse encontro uma das revelações mais significativas do Evangelho. Jesus encontrou um homem onde outros viam apenas um cobrador de impostos. Um chamado que revelou à Igreja o olhar de Deus sobre o mundo
O Evangelho não registra uma investigação sobre seu passado, nem apresenta uma relação de condições que Mateus deveria cumprir antes de ser acolhido. O chamado alcançou o homem no lugar em que ele se encontrava.
Aquele olhar de Jesus forja uma lição permanente para a Igreja. O Senhor não desconhecia a condição de Mateus, mas recusou-se a fazer dela a medida de sua pessoa. O passado de um homem pode explicar muito de sua história, mas não determina tudo o que ele ainda poderá ser. A misericórdia de Cristo alcança um lugar onde o julgamento humano costuma concluir suas possibilidades.
A Igreja continuou e continua vivendo dessa mesma misericórdia. Uma missão que consiste em reunir pessoas, e anunciar a todos a possibilidade de uma vida transformada pelo encontro com Cristo.
O chamado de Mateus ensina também que a misericórdia possui uma força transformadora. Jesus o acolheu sem exigir que apresentasse uma vida irrepreensível, mas o chamou a levantar-se e segui-lo.
Depois daquele encontro, Jesus sentou-se à mesa com publicanos e pecadores. Os fariseus perguntaram aos discípulos por que seu mestre comia com aquelas pessoas. A resposta de Jesus esclareceu o sentido de sua presença entre nós: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes”. E acrescentou, retomando o profeta Oseias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 9,12-13; Os 6,6).
O chamado de Jesus interrompe uma imobilidade. Ele alcança o ser humano em sua vida concreta e lhe revela que sua existência possui uma finalidade maior do que conservar aquilo que já possui. Seguir Cristo exige a coragem de levantar-se, de abandonar e de acolher a novidade de uma vida a altura do Evangelho.
Mateus levantou-se porque compreendeu que aquele que o chamava lhe oferecia algo que sua coletoria de impostos jamais poderia proporcionar. Na palavra de Jesus encontrou a dignidade de ser escolhido e a liberdade de corresponder a essa escolha.
A Igreja conservar vivo esse chamado no coração do mundo. Sua presença permite que as pessoas reconheçam o olhar de Cristo, sobretudo quando já não conseguem enxergar em si mesmas a possibilidade de uma vida diferente. Sua palavra anuncia a misericórdia com a mesma clareza com que convida à conversão. E sua comunhão testemunha que aqueles que foram alcançados pelo Senhor podem encontrar entre os irmãos um lugar para recomeçar.
A história de Mateus permanece diante de nós como testemunho de que uma existência inteira pode encontrar seu sentido no instante em que alguém escuta o Senhor dizer: “Segue-me!”






