Documentos liberados pelo ministro André Mendonça, do STF, revelam novos detalhes da investigação sobre o Banco Master e ampliam a pressão por transparência no caso
Novos documentos relacionados ao caso Banco Master vieram a público nesta sexta-feira (11), após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o levantamento do sigilo de procedimentos ligados à investigação que apura suspeitas de fraudes financeiras e corrupção envolvendo o ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro.
A decisão de Mendonça alcançou 15 procedimentos relacionados ao caso. O ministro afirmou posteriormente que todos os documentos que poderiam ser divulgados já haviam sido disponibilizados, mantendo sob sigilo apenas informações cuja divulgação poderia comprometer diligências ainda em andamento.
A medida, entretanto, provocou uma nova disputa dentro do próprio Supremo. O ministro Alexandre de Moraes afirmou que ainda existiriam 180 documentos não disponibilizados e classificou a liberação como seletiva. Mendonça contestou a afirmação e disse que a diferença estaria relacionada à organização dos documentos e à transferência de peças entre procedimentos.
Contrato de R$ 131 milhões com escritório da esposa de Moraes
Um dos documentos que mais chamou atenção é o contrato firmado em 2024 entre o Banco Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
O acordo previa pagamentos que poderiam chegar a aproximadamente R$ 131 milhões ao longo de três anos. O contrato abrangia serviços de advocacia, programas de compliance e consultoria estratégica, inclusive em procedimentos perante órgãos como Polícia Federal, Receita Federal, Banco Central e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Segundo documentos analisados pela Polícia Federal, o contrato passou por alterações atribuídas a um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A primeira alteração teria ocorrido antes do envio da minuta a Daniel Vorcaro, enquanto outra modificação teria sido registrada depois que o banqueiro devolveu o documento com sugestões.
O escritório de Viviane Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes teve acesso ao contrato. Segundo a defesa, a consulta ocorreu porque o setor de compliance da banca buscou verificar a existência de eventual impedimento legal relacionado à contratação. A defesa sustenta que não havia impedimento e que o ministro não julgava processos do Banco Master.
Pagamentos ao escritório chegaram a mais de R$ 80 milhões
Dados fiscais citados nas investigações apontam que o escritório recebeu aproximadamente R$ 80,2 milhões do Banco Master em 22 parcelas entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025.
O contrato, entretanto, previa um valor total superior, de aproximadamente R$ 131,2 milhões, considerando os três anos de prestação de serviços.
A relação entre o escritório e o banco tornou-se um dos principais pontos de interesse da investigação diante da proximidade entre Daniel Vorcaro e integrantes de diferentes setores do poder público.
PF aponta viagens pagas a servidores do Banco Central
Outro conjunto de documentos revelado pela investigação trata da relação de Daniel Vorcaro com servidores do Banco Central.
Segundo a Polícia Federal, o ex-banqueiro teria custeado viagens internacionais para servidores da instituição e seus familiares. Uma das viagens teria levado um servidor e sua esposa a Paris, enquanto outra teria como destino a Disney, nos Estados Unidos.
A investigação também aponta que um dos servidores teria recebido aproximadamente R$ 3,8 milhões, em pagamentos mensais que chegaram a R$ 500 mil.
A defesa dos envolvidos nega irregularidades e afirma que os pagamentos estavam relacionados a um programa de treinamento financeiro para jovens. A PF, entretanto, sustenta que os servidores teriam ultrapassado suas funções ao fornecer informações e auxiliar em estratégias relacionadas ao conglomerado Master.
Vorcaro teria sido avisado sobre operação que resultaria em sua prisão
Outro ponto de destaque é a suspeita de que Daniel Vorcaro tenha tomado conhecimento antecipado da operação policial que resultaria em sua prisão.
Documentos da Polícia Federal indicam que o banqueiro teria recebido informações sobre a investigação e chegou a organizar uma possível saída do país.
Vorcaro foi preso em novembro de 2025 no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta.
Segundo os investigadores, mensagens encontradas em seu celular indicariam que ele tinha conhecimento de informações sigilosas sobre a operação e mantinha contato com pessoas que poderiam ter acesso a dados da investigação.
Relação com Alexandre de Moraes volta ao centro da investigação
A divulgação dos documentos também aumenta a pressão sobre a relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
Relatórios da Polícia Federal já haviam identificado dezenas de mensagens trocadas entre o banqueiro e um número atribuído ao ministro. O material inclui conversas ocorridas nas semanas anteriores à prisão de Vorcaro.
A divulgação dessas mensagens foi um dos fatores que levaram o caso ao centro da crise interna atualmente vivida pelo Supremo Tribunal Federal.
O plenário do STF deverá analisar na próxima terça-feira (15) a possibilidade de abertura de investigação relacionada à atuação de Moraes no episódio.
Investigação sobre “Dark Horse” permanece no centro da disputa
Apesar da retirada de sigilo de diversos procedimentos, uma das frentes mais politicamente sensíveis continuou sob restrições: a investigação relacionada ao filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
A investigação apura suspeitas relacionadas ao financiamento da produção e envolve nomes como Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o deputado Mário Frias.
Segundo informações divulgadas anteriormente, Daniel Vorcaro teria destinado dezenas de milhões de reais para o projeto. A apuração investiga possíveis crimes como lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Paralelamente, documentos relacionados ao caso revelaram movimentações consideradas atípicas da Unigrejas — União Nacional das Igrejas e Pastores Evangélicos. Segundo informações do Coaf citadas em decisão judicial, a entidade movimentou aproximadamente R$ 7,78 milhões entre outubro de 2025 e abril de 2026.
Caso também envolve outras autoridades e políticos
As investigações do caso Master não se limitam à relação entre Vorcaro e integrantes do STF.
Os documentos alcançam diferentes autoridades e políticos, entre eles o senador Flávio Bolsonaro, o senador Jaques Wagner, o senador Ciro Nogueira e o ex-governador Cláudio Castro.
Parte desses procedimentos, porém, permanece sob sigilo ou depende da conclusão de diligências para que possa ser integralmente divulgada.
Disputa pelo acesso aos documentos
A divulgação dos documentos abriu também uma disputa institucional dentro do Supremo.
Alexandre de Moraes afirma que 180 peças ainda não foram disponibilizadas e pediu que todo o conteúdo relacionado ao caso seja liberado.
André Mendonça, entretanto, afirma que não mantém sob sigilo documentos que poderiam ser divulgados e que eventuais restrições estão relacionadas a diligências investigativas ainda em andamento.
O presidente do STF, Edson Fachin, havia determinado que o sigilo fosse retirado, ressalvando apenas informações cuja preservação fosse considerada indispensável para a realização de diligências.
O episódio deverá ser discutido pelo plenário do Supremo na próxima terça-feira, quando os ministros deverão analisar os pedidos relacionados à investigação e à atuação de Alexandre de Moraes no caso.
O que os novos documentos acrescentam
A documentação tornada pública amplia o conhecimento sobre a dimensão do caso Master e revela que as investigações não estão concentradas apenas nas suspeitas de fraude financeira atribuídas a Daniel Vorcaro.
Os autos apontam para uma rede de relações envolvendo instituições financeiras, agentes públicos, políticos, escritórios de advocacia e pessoas ligadas a diferentes setores do poder público.
Entre os principais pontos revelados ou reforçados pelos documentos estão:
- o contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da esposa de Alexandre de Moraes;
- registros de alterações no contrato atribuídas a um perfil identificado como o do ministro;
- pagamentos superiores a R$ 80 milhões ao escritório até novembro de 2025;
- suspeitas da PF sobre viagens internacionais custeadas para servidores do Banco Central;
- pagamentos milionários relacionados a servidores públicos;
- indícios de que Vorcaro teria recebido informações sobre a operação que resultaria em sua prisão;
- mensagens e contatos frequentes entre Vorcaro e Alexandre de Moraes;
- investigações envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”;
- movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo uma entidade ligada a igrejas;
- e uma crescente disputa dentro do STF sobre quais documentos devem permanecer sob sigilo.
O caso ainda está em andamento e as informações divulgadas representam elementos de investigação e suspeitas que ainda precisam ser analisados pelas autoridades competentes. A divulgação dos documentos, portanto, não significa que todas as acusações estejam comprovadas ou que os investigados tenham sido considerados culpados.
A expectativa agora se concentra na sessão do STF marcada para terça-feira (15), quando os ministros deverão analisar parte das questões relacionadas ao caso e à possível abertura de investigação sobre a atuação de Alexandre de Moraes.






