Apicultura fortalece economia local em parceria entre universidade e produtores no Oeste de Goiás

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Iniciativa articula universidade, produtores rurais e instituições como SENAR e SEBRAE, fortalece agricultura familiar, amplia produção de mel no Cerrado e consolida associação com mais de 40 apicultores no município

Em meio aos desafios ambientais do Cerrado e à necessidade de fortalecimento da agricultura familiar, um projeto desenvolvido pela Universidade Estadual de Goiás vem se destacando pela integração entre ensino, pesquisa, extensão e desenvolvimento rural. A iniciativa, coordenada pelo professor doutor Paulo Victor Divino Xavier, articula ações que envolvem apicultura, produção de mudas nativas, resgate de abelhas e formação prática de estudantes, consolidando uma ponte entre a universidade e o campo.

Mais do que um projeto acadêmico, a proposta tem se tornado uma ferramenta de transformação social e econômica, aproximando conhecimento científico da realidade dos produtores rurais e contribuindo para o desenvolvimento sustentável da região de São Luís de Montes Belos.

Segundo o coordenador, o principal objetivo é despertar consciência ambiental e fortalecer o vínculo das pessoas com a natureza. “O projeto surgiu na esperança de criar nas pessoas esse amor pela natureza, pelo plantio de árvores e pela preservação das abelhas”, afirmou.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS COMO BASE DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL

A presença da Universidade Estadual de Goiás é considerada um dos pilares centrais da iniciativa. A instituição atua diretamente na coordenação técnica, na formação de estudantes e na integração com produtores rurais.

A estrutura da universidade, especialmente por meio da fazenda escola, permite o desenvolvimento de atividades práticas essenciais para o projeto. É nesse espaço que enxames resgatados recebem manejo técnico antes de serem destinados a apicultores locais, garantindo segurança e adaptação adequada das colônias.

Além disso, a UEG também desempenha papel importante na formação de profissionais, especialmente nos cursos ligados às ciências agrárias, como Zootecnia e áreas correlatas. Os estudantes participam ativamente de todas as etapas, desde o campo até a pesquisa científica, fortalecendo a formação acadêmica com experiência prática.

A atuação da universidade tem sido apontada como fundamental para o fortalecimento do desenvolvimento regional, ao aproximar ciência, inovação e demandas reais da agricultura familiar.

ABELHAS, CONSERVAÇÃO E IMPORTÂNCIA AMBIENTAL

O eixo central do projeto é a preservação das abelhas, consideradas essenciais para o equilíbrio ambiental e para a produção de alimentos. O trabalho inclui o resgate de enxames encontrados em áreas urbanas e rurais, muitas vezes em locais de risco para a população.

Após o resgate, as colônias são encaminhadas para a universidade, onde passam por manejo técnico e acompanhamento especializado antes de serem destinadas a produtores da região.

Durante a entrevista, o professor Paulo Victor destacou a relevância das abelhas para o ecossistema. Ele relembra a ideia amplamente difundida de que, sem as abelhas, a produção de alimentos seria severamente comprometida.

Na região do Cerrado, uma colmeia bem manejada pode produzir cerca de 30 quilos de mel por ano, especialmente no período de seca, quando ocorre maior floração de espécies nativas.

“A produção de mel, cera e pólen representa uma importante fonte de renda para os pequenos produtores da agricultura familiar e, ao mesmo tempo, contribui para a preservação ambiental”, explicou.

PRODUÇÃO DE MUDAS E RECUPERAÇÃO DO CERRADO

Outra frente relevante do projeto é a produção e distribuição de mudas nativas do Cerrado, realizadas em feiras, eventos e ações comunitárias no município.

Entre as espécies cultivadas e distribuídas estão ipê-amarelo, ipê-roxo, jacarandá, baru, cagaita e tamboril, todas fundamentais para a manutenção da biodiversidade local.

A iniciativa surgiu a partir da necessidade de recomposição ambiental e da própria dependência das abelhas em relação à vegetação nativa.

“A abelha precisa de árvores e flores. O apicultor, na prática, também é um preservador da natureza”, destacou o coordenador.

Além do impacto ambiental, o plantio de mudas contribui para a melhoria do clima urbano, sombreamento de áreas e recuperação de espaços degradados. Segundo os organizadores, a procura por mudas tem aumentado a cada nova ação realizada na cidade.

FORMAÇÃO DE ESTUDANTES E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO

Um dos diferenciais mais importantes do projeto é a participação ativa dos estudantes da UEG em todas as etapas do processo produtivo e ambiental.

Os acadêmicos acompanham o resgate de abelhas, o manejo de colmeias, a produção de mudas e o contato direto com produtores rurais, o que fortalece a formação prática e amplia a visão profissional.

O estudante Jonathan, do curso de Zootecnia, relata que a experiência tem sido decisiva para sua formação.

“Participar do projeto está sendo uma experiência muito interessante, tanto na convivência com as pessoas quanto na parte acadêmica”, afirmou.

O estudante também desenvolveu uma pesquisa científica sobre o impacto das mudas distribuídas pelo projeto. O estudo apontou que mais de 78% das mudas plantadas sobreviveram, índice considerado significativo diante das condições climáticas do Cerrado.

O trabalho foi aprovado para apresentação em congresso nacional de Zootecnia, em Viçosa (MG), uma das principais referências acadêmicas do país na área agropecuária.

ASSOCIAÇÃO DE APICULTORES E ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

Em outubro do ano passado, foi criada a Associação de Apicultores de São Luís de Montes Belos, representando um marco na organização da cadeia produtiva local.

Atualmente, a associação reúne mais de 40 apicultores, consolidando um grupo expressivo de produtores que atuam de forma integrada na região.

Desse total, cerca de 30 recebem acompanhamento técnico contínuo do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), em parceria com o Sindicato Rural, por meio de visitas mensais e orientação de manejo.

A criação da associação surgiu da necessidade de organização coletiva, compartilhamento de equipamentos e fortalecimento da produção, especialmente entre pequenos produtores que não possuíam estrutura adequada.

SENAR, SEBRAE E QUALIFICAÇÃO TÉCNICA DOS PRODUTORES

O SENAR desempenha papel essencial no acompanhamento técnico da produção apícola, oferecendo capacitações, orientações de manejo e suporte contínuo aos produtores.

Já o SEBRAE atua diretamente na qualificação dos produtores por meio de cursos de boas práticas de fabricação, higiene, gestão e organização da produção rural.

Essas formações têm contribuído para a profissionalização da atividade e para a melhoria da qualidade do mel produzido na região, além de preparar os produtores para atender exigências sanitárias cada vez mais rigorosas do mercado.

SERVIÇO DE INSPEÇÃO MUNICIPAL (SIM) E FORMALIZAÇÃO DO SETOR

Um dos principais avanços em andamento é a implantação do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), que representa um marco para a comercialização da produção local.

O selo permitirá que os produtores vendam o mel de forma legalizada, com emissão de nota fiscal, acesso a programas governamentais e entrada em mercados institucionais e privados.

Atualmente, parte dos produtores ainda enfrenta limitações para comercialização devido à ausência de certificação sanitária, mesmo com aumento da demanda pelo produto.

Os apicultores destacam que o SIM não apenas amplia o mercado, mas também garante segurança alimentar ao consumidor final.

CASA DO MEL E ESTRUTURA DE BENEFICIAMENTO COLETIVO

Outro projeto estratégico em desenvolvimento é a implantação da Casa do Mel, estrutura coletiva destinada ao beneficiamento da produção apícola.

O espaço deverá contar com equipamentos modernos como centrífugas, decantadores, mesas desoperculadoras e área adequada de envase, garantindo padrão sanitário e maior eficiência no processamento.

Atualmente, muitos produtores ainda utilizam estruturas improvisadas ou compartilhadas, o que reforça a necessidade de uma unidade estruturada e coletiva.

A Casa do Mel é vista como um passo fundamental para ampliar a qualidade do produto e facilitar a inserção no mercado formal.

PRODUÇÃO, CRESCIMENTO E DADOS DA ATIVIDADE

A produção de mel na região apresenta crescimento contínuo e se consolida como atividade econômica relevante.

Em 2024, a produção da associação foi estimada entre 6 e 7 toneladas. Já para 2025, a projeção é ultrapassar 15 toneladas, impulsionada pela ampliação do número de produtores e melhorias no manejo.

A expectativa dos produtores é que, com a implantação da Casa do Mel e do SIM, a produção continue crescendo de forma estruturada nos próximos anos, fortalecendo ainda mais a cadeia produtiva local.

EXPERIÊNCIA DE PRODUTORES E REALIDADE NO CAMPO

Entre os produtores envolvidos na atividade, a apicultura tem se consolidado como uma importante fonte de renda e transformação social no meio rural. A organização em associação foi apontada como um dos principais fatores para o crescimento da produção e para a melhoria das condições de trabalho no campo.

O produtor Ederlúcio Geraldo, um dos apicultores da região, relata que a atividade evoluiu significativamente nos últimos anos, especialmente com o fortalecimento da assistência técnica e a união dos produtores.

Segundo ele, a criação da associação representou um marco importante para a categoria, permitindo maior acesso a equipamentos, troca de experiências e apoio institucional.

Ederlúcio destaca que, com o avanço da organização coletiva e o apoio técnico recebido, a produção passou por crescimento expressivo. Ele relata que iniciou na atividade com volumes menores e, ao longo do tempo, com investimento em manejo e estrutura, conseguiu ampliar consideravelmente sua produção anual.

O produtor também chama atenção para o potencial econômico da apicultura na região, ressaltando que, quando bem estruturada, a atividade pode representar uma importante fonte de renda para as famílias rurais, ultrapassando a condição de atividade complementar.

IMPACTO ECONÔMICO E AGRICULTURA FAMILIAR

A apicultura tem desempenhado papel fundamental na economia local, especialmente por estar inserida na agricultura familiar.

Os recursos gerados pela atividade circulam diretamente no comércio do município, fortalecendo pequenos negócios e contribuindo para a economia regional.

Diferente de grandes monoculturas, a agricultura familiar mantém fluxo constante de renda ao longo do ano, o que garante maior estabilidade econômica para as famílias envolvidas.

INTEGRAÇÃO ENTRE CIÊNCIA, CAMPO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO CERRADO

O projeto desenvolvido em São Luís de Montes Belos se consolida como uma iniciativa de referência ao integrar preservação ambiental, formação acadêmica, organização produtiva e geração de renda no campo. A experiência mostra, na prática, como ações conjuntas entre universidade, produtores rurais e instituições parceiras podem fortalecer a agricultura familiar e impulsionar a economia local.

A atuação integrada entre a Universidade Estadual de Goiás, os apicultores e entidades de apoio como SENAR e SEBRAE evidencia que o desenvolvimento sustentável no Cerrado passa pela cooperação entre ciência, campo e políticas públicas, com resultados diretos na produção, na qualificação dos trabalhadores e na preservação ambiental da região.

Fotos: Simões Filho